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segunda-feira, 14 de maio de 2012

5 ESTÁGIOS DA VIDA




REFLEXÃO DO DIA

Porque aumenta assustadoramente o uso de diversos tipos DROGAS atualmente nas famílias? Para entendermos o que cada família sente EMOCIONALMENTE quando descobre que seu filho(a) está usando drogas, é preciso entender as fases das etapas do luto para traçar um paralelo entre a DROGADICÇÃO e as relações destas etapas das perdas.


5 Estágios de todas perdas que enfrentamos ao longo da vida:

1. NEGAÇÃO
2. RAIVA
3.BARGANHA (ESSA SE MANIFESTA MUITAS VEZES NA RELIGIOSIDADE DO INDIVÍDUO)
4. DEPRESSÃO
5. ACEITAÇÃO

Pois por mais que possam ter sido vividas de forma triste, traumática e frustrante, passaram a representar um estilo de vida de um sistema familiar disfuncional. 

Portanto, o fim dos papéis adotados e vividos dentro desta dinâmica familiar doentia, representa um luto. E por mais incrível que possa parecer, é uma despedida dolorosa, pois representava um movimento familiar já bem estabelecido durante anos e que agora, no caminho da recuperação, tende a se desfazer, o que envolve um corajoso mergulho de cada membro em busca de si mesmo, o que não é nada fácil. 

1º - FASE da NEGAÇÃO -- onde o doente se recusa a aceitar o diagnóstico de sua condição fatal. Devemos entendê-lo como um processo natural de defesa, tendo em vista o tamanho da dor experimentada e a incapacidade momentânea em suportá-la. 

Por isso essa negação de alguma forma vem aliviar o impacto da notícia, buscando acima de tudo um conforto e um suposto reequilíbrio emocional.

Já nos DEPENDENTES QUÍMICOS e em seus familiares, a NEGAÇÃO acontece de forma intensa assim que a doença começa a se manifestar ou nos primeiros sinais do uso contínuo de substâncias psicoativas. O dependente químico nega que é um doente por acreditar erroneamente que não consegue viver sem a substância de que tanto precisa: a droga, não suportando a ideia de abster-se do que se tornou dependente e que de alguma forma o “alivia” . 

No caso dos co-dependentes, além de negarem a doença de seu familiar, não só para se protegerem da dor e do sofrimento vivido, como também para, ilusoriamente “proteger” o seu dependente; negam também sua dependência emocional, pois acreditam ainda que a DINÂMICA FAMILIAR ESTÁ CAÓTICA APENAS EM FUNÇÃO DA DOENÇA E NÃO EM FUNÇÃO DO PRÓPRIO SISTEMA DISFUNCIONAL O QUAL ESTÃO INSERIDOS E SUBMETIDOS.

Olhar para o dependente químico e sua doença é uma forma que encontram de se protegerem de um emaranhado de sentimentos confusos e obscuros que os perseguem todo o tempo, como a impotência diante do outro, a culpa que acreditam pertencer-lhes e principalmente por não conseguirem reverter a situação. Carregam assim a ilusão de controle sobre o dependente químico e sua doença. 

Encontrar um novo modo de viver com responsabilidade e maturidade por suas próprias vidas e atos requer coragem, esforço e determinação. As antigas relações com o dependente químico, ainda que doentias, traziam a ilusão de segurança, pois de alguma forma já sabiam se posicionar e lidar com elas. Por isso, o novo passa a ser ameaçador.

Diante disto cabe a nós os PSICANALISTAS, os profissionais a traduzir com cautela essa defesa utilizada, oferecendo-lhes suficiente segurança para que possam enxergar com serenidade o que realmente está acontecendo em seu interior e no sistema familiar, encorajando-os, acima de tudo, às mudanças necessárias e mais saudáveis. 

2ª - FASE da REVOLTA e RAIVA -- Procuram culpar algo ou alguém por sua “condenação” e por ter sido “o escolhido” pela doença adquirida e manifesta. Queixa-se muito, reclamando atenção, numa tentativa de não se fazer esquecido. É muito comum a auto-piedade e as agressões verbais, como uma forma de mostrar que ainda está vivo. É uma fase onde familiares e profissionais devem entendê-la como uma manifestação de sua dor e não como uma agressão pessoal.

= “Porque isso está acontecendo comigo?”, 
= “O que fiz para merecer isto?”, 
= “Por que, Por que e Por que?” 

são os pensamentos e as frases mais presentes neste momento. 

Já nos DEPENDENTES QUÍMICOS como o alcoolismo e na drogadição, quando esse quadro se torna mais evidente o dependente químico demonstra raiva, apesar de interiormente sentir culpa e vergonha por estar preso e vencido pelo poder das drogas sobre ele. 

Os CO-DEPENDENTES, ou seja, FAMÍLIA == por sua vez, costumam culpar algo ou outras pessoas pela manifestação da doença de “seu” dependente, como más companhias, término de relacionamentos com esposas(os) ou namoradas(os), incompetência educacional do parceiro(a), etc.; ao mesmo tempo em que constatam que seus esforços para reverter esse quadro de nada adiantaram. 

Por isso sentem raiva. Raiva dos outros, raiva de si mesmos, raiva do dependente, da doença e da vida. 

Carregam frustração, revolta e ressentimento. Neste estágio é comum lançarem mão de atitudes mais enérgicas com o “seu” dependente, como também adotarem um papel de mártires num jogo silencioso e hostil. 

O objetivo final deste processo no tratamento é ajudá-los a se responsabilizarem por suas próprias atitudes e sentimentos, convidando-os a olharem para si mesmos e buscarem uma forma de lidar com sua própria vida, sem deixarem que a doença ou o dependente escolham por eles. É o melhor momento de se trabalhar o desligamento emocional. 
  • O desligamento emocional não é uma atitude fácil de se elaborar e aceitar. 
  • Quando percebem que sua RAIVA e/ou AUTO-PIEDADE são destrutivas, resistem mais uma vez em admitirem sua impotência diante do outro e não se “rendem” tão fácil assim. 
3ª FASE da NEGOCIAÇÃO == Vivem novamente a ilusão de controle da situação, interferindo no processo de responsabilidade e de escolha do dependente através de chantagens emocionais.

Questionam e resistem às orientações do profissional responsável e aos programas de recuperação, numa tentativa de negociarem seus desejos e vontades, muitas vezes inadequados, pois acreditam que ainda podem modificar o dependente.

Nosso papel como profissional é fazê-los entender e sentir que só é possível se responsabilizarem por suas próprias escolhas e mostrar-lhes a necessidade de abraçarem a própria vida.

Nas perdas vive-se também a expressado revolta e raiva pela perda e não conseguindo nenhum retorno, aceita então o fato de perder, mas tenta adiá-lo. E, tão logo reconheça que tais negociações se tornaram também sem efeito e impossíveis vivem então a quarta fase: 

4ª FASE da DEPRESSÃO == É comum fazer uma revisão de sua vida, passando por longos períodos em silêncio e de forma reflexiva. Aceita a perda é um período que precede a aceitação, a última fase; 

5ª FASE da ACEITAÇÃO == Aguardando então a evolução natural e ainda que tenha alguma esperança, neste momento a pessoa não se angustia mais. Busca apenas terminar algo que deixou por resolver, fazer suas despedidas com paz e tranqüilidade, se preparando assim para a proximidade do fim, ou seja, aceitar a perda com dignidade.

NO DEPENDENTE QUÍMICO e nos CO-DEPENDENTES – OS FAMILIARES se manifestará também da mesma forma, após uma nova constatação de que são de fato impotentes diante do álcool, das drogas e do outro e que não podem modificá-los. 

Um período de baixa emocional, chorando muitas vezes de forma silenciosa. Normalmente nesta fase concordam em procurar os grupos de mútua-ajuda e iniciam com mais facilidade o 1º Passo da Programação dos 12 passos: 
– “Admitimos que éramos impotentes perante o ÁLCOOL – que tínhamos perdido o controle de nossas vidas”.
– “Admitimos que éramos impotentes perante a nossa ADICÇÃO, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis.”
- “Admitimos que éramos impotentes perante o ADICTO e que tínhamos perdido o controle de nossas vidas”. 

Infelizmente, muitos dependentes e co-dependentes param por aí, e se recusam a prosseguir até o último estágio de seu luto.

Preferem continuar sofrendo, prosseguindo no processo de dependência ativa, sendo mártires ou reféns da própria doença e da dependência emocional.

Resistem em prosseguir em direção a recuperação. Possivelmente continuarão sofrer por muito tempo ainda.

Neste momento de recaída emocional, é fundamental procurar o incentivo de outras pessoas, tanto dos grupos de mútua-ajuda como dos profissionais responsáveis para que continuem seu tratamento, aceitando seus próprios sentimentos e avançando assim até a última e necessária fase de seu trabalho de luto – a aceitação, estágio que se vivenciado leva-os enfim a uma efetiva mudança. 

Então, o sistema familiar muda, os papéis mudam, as pessoas mudam, o dependente químico muda.

De FAMÍLIA DISFUNCIONAL (família onde o relacionamento entre os seus membros são distorcidos, bloqueados e rígidos sem a permissão de mudanças em sua dinâmica) passa a ser uma família funcional (família onde existe confiança, respeito e cooperação entre seus membros e abertura para mudanças, mesmo em momentos difíceis), madura e saudável.

Encerram o processo de luto e finalmente aceitam a morte de seus relacionamentos dependentes e doentios. E só assim conseguem conquistar serenidade e a determinação em construir uma “nova” vida.

O dependente químico por sua vez, descobre que pode viver sem a bebida e as drogas e assim renasce.

E os co-dependentes = FAMILIARES = descobrem que podem se sentir confortáveis, apesar de sua impotência diante de “seu” dependente.

A incapacidade de modificar o comportamento do outro já não lhes tira mais o sossego, entregando a partir daí a responsabilidade da recuperação para o próprio dependente químico.

Enfim, aprendem realmente o que significa o desligamento emocional, passando a se importar com ele e não por ele e sentindo-se livres para amar e renascer após a perda, o luto e a morte de seus relacionamentos patológicos. Mas, tudo isso, vivendo “um dia de cada vez” e "só por hoje”.

Enfrenta As perdas de forma tranquila é a saída, mas é preciso desejar e investir na recuperação enfrentando o fim de seus relacionamentos doentios e resgatam suas próprias vidas, bem como a auto-estima e a autoconfiança.

A partir de então se estabelece uma dinâmica mais digna e saudável e de um gratificante processo de evolução pessoal, emocional e espiritual onde, se responsabilizar pelos próprios atos e sentimentos é o pleno exercício da liberdade.

A recuperação enfim, deixa de ser um fardo e se torna entusiasmo. E dizer “eu sou responsável” passa a ser uma alegria incontida.

Portanto, NEGAÇÃO, RAIVA, NEGOCIAÇÃO, DEPRESSÃO E ACEITAÇÃO são os 5 estágios do caminho para a elaboração de todas as perdas que percorremos até conseguir encontrar a serenidade e o resgate de suas próprias vidas.

Cássia Rodrigues

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sigmund Schlomo Freud

Sigmund Freud

Freud (1920)

Nascimento

6 de Maio de 1856Příbor, República Checa

Falecimento

23 de Setembro de 1939 (83 anos)Londres, Inglaterra

Escola/tradição

Psicanálise (fundador)

Principais interesses

Neurologia, Antropologia, Psicologia, Sociologia

Idéias notáveis

Inconsciente, sonho, libido, divisão do aparelho psíquico, desenvolvimento psicossexual, pulsão, mecanismos de defesa, determinismo psíquico

Influências

Jung, Brücke, Darwin, Charcot, Breuer, Sófocles, Shakespeare, Goethe, Schopenhauer

Influenciados

Jung, Lacan, Adler, Klein, Escola de Frankfurt, Guattari, de Beauvoir, Castoriadis e outros...
Sigmund Freud (Příbor, 6 de maio de 1856 — Londres, 23 de setembro de 1939) foi um médico neurologista judeu-austríaco, fundador da psicanálise. Nasceu em Freiberg, Morávia (hoje Příbor), quando esta pertencia ao Império Austríaco.

Interessou-se inicialmente pela histeria e, tendo como método a hipnose, estudou pessoas que apresentavam esse quadro. Mais tarde, com interesses pelo inconsciente e pulsões, entre outros, foi influenciado por Charcot e Leibniz, abandonando a hipnose em favor da associação livre e da interpretacao dos sonhos. Estes elementos tornaram-se as bases da psicanálise. Freud, além de ter sido um grande cientista e escritor (Prémio Goethe, 1930), possui o título, assim como Darwin e Copérnico, de ter realizado uma revolução no âmbito humano: a idéia de que somos movidos pelo inconsciente.

Freud, suas teorias e seu tratamento com seus pacientes foram controversos na Viena do século XIX, e continuam a ser muito debatidos hoje. Suas idéias são freqüentemente discutidas e analisadas como obras de literatura e cultura geral em adição ao contínuo debate ao redor delas no uso como tratamento científico e médico.

Biografia

Nascido Sigismund Schlomo Freud (mas em 1877 abreviou seu nome para Sigmund Freud), aos quatro anos de idade sua família transferiu-se para Viena por problemas financeiros. Morou em Viena até 1938, quando, com a vinda do nazismo (Freud era judeu), foge para a Inglaterra. Era um excelente aluno, porém, por ser judeu, só poderia escolher entre os cursos de Direito ou Medicina, optando por este último.

Sigmund Freud é filho de Jacob Freud e de sua terceira mulher Amalie Nathanson (1835-1930). Jacob, um judeu proveniente da Galiza e comerciante de lã, muda-se a Viena em 1860.[1]

Os primeiros anos de Freud são pouco conhecidos, já que ele destruíra seus escritos pessoais em duas ocasiões: a primeira em 1885 e novamente em 1907. Além disso, seus escritos posteriores foram protegidos cuidadosamente nos Arquivos de Sigmund Freud, aos quais só tinham acesso Ernest Jones (seu biógrafo oficial) e uns poucos membros do círculo da psicanálise. O trabalho de Jeffrey Moussaieff Masson pôs alguma luz sobre a natureza do material oculto.[2]

Em 14 de Setembro de 1886 em Hamburgo, Freud se casou-se com Martha Bernays.[3]

Freud e Martha tiveram seis filhos: Mathilde, nascida em 1887, Jean-Martin, nascido em 1889, Olivier, nascido em1891, Ernst, nascido em 1892, Sophie, nascida em 1893 e Anna, nascida em 1895. Um deles, Martin Freud, escreveu uma memória intitulada Freud: Homem e Pai, na qual descreve o pai como um homem reservado, porém, amável, que trabalhava extremamente, por longas horas, mas que adorava ficar com suas crianças durante as férias de verão.

Anna Freud, filha de Freud, foi também uma psicanalista destacada, particularmente no campo do tratamento de crianças e do desenvolvimento psicológico. Sigmund Freud foi avô do pintor Lucian Freud e do ator e escritor Clement Freud, e bisavô da jornalista Emma Freud, da desenhista de moda Bella Freud e do relacionador público Matthew Freud.

Por sua vida inteira Freud teve problemas financeiros. Josef Breuer foi um aliado de Freud em suas idéias e também um aliado financeiro.

Nos tempos do nazismo, Freud perdeu quatro irmãs (Rosa, Dolfi, Paula, e Marie Freud). Embora Marie Bonaparte tenha tentado retirá-las do país, elas foram impedidas de sair de Viena pelas autoridades nazistas[4] e morreram nos campos de concentração de Auschwitz e de Theresienstadt.

Maturidade

Placa memorial localizada onde Freud nasceu em Příbor, República Tcheca.

Freud inicia os estudos na universidade aos 17 anos, os quais tomam-lhe inesperadamente bastante tempo até a graduação, em 1881. Registros de amigos que o conheciam naquela época, assim como informações nas próprias cartas escritas por Freud, sugerem que ele foi menos diligente nos estudos de medicina do que devia ter sido. Em lugar dos estudos, ele atinha-se à pesquisa científica, inicialmente pelos estudos dos órgãos sexuais de enguias — um estranho, mas interessante presságio das teorias psicanalíticas que estariam por vir vinte anos mais tarde. De acordo com os registros, Freud completa tal estudo satisfatoriamente, mas sem distinção especial. Em 1877, desapontado com os resultados e talvez menos excitado em enfrentar mais dissecações de enguias, Freud vai ao laboratório de Ernst Brücke, que torna-se seu principal modelo de ciência.

Com Brücke, Freud entra em contato com a linha fisicalista da Fisiologia. O interesse de Brücke não era apenas descobrir as estruturas de órgãos ou células particulares, mas sim, suas funções.

Dentre as atribuições de Freud, nesta época, estavam o estudo da anatomia e da histologia do cérebro humano. Durante os estudos, identifica várias semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a de répteis, o que o remete ao então recente estudo de Charles Darwin sobre a evolução das espécies e à discussão da "superioridade" dos seres humanos sobre outras espécies.

Freud, então, conhece Martha Bernays, e parece ter sido amor à primeira vista. O seu desejo de desposar Martha, o baixo salário e as poucas perspectivas de carreira na pesquisa científica - fazem-no abandonar o laboratório e a começar a trabalhar no Hospital Geral, o principal hospital de Viena, passando por vários departamentos do mesmo. O próprio Brücke aconselha-o a mudar, apesar de seu bom desempenho e com razão, já que Freud precisava ganhar dinheiro.

No hospital, depois de algumas desilusões com o estudo dos efeitos terapêuticos da cocaína — com inclusive um episódio de morte por overdose de um amigo da época do laboratório de Brücke —, Freud recebe uma licença e viaja para a França, onde trabalha com Charcot, um respeitável psiquiatra do hospital psiquiátrico Saltpêtrière que estudava a histeria.

De volta ao Hospital Geral e entusiasmado pelos estudos de Charcot, Freud passa a atender, na maior parte, jovens senhoras judias que sofriam de um conjunto de sintomas aparentemente neurológicos que compreendiam paralisia, cegueira parcial, alucinações, perda de controle motor e que não podiam ser diagnosticados com exames. O tratamento mais eficaz para tal doença incluía, na época, massagem, terapia de repouso e hipnose.

Apenas em Setembro de 1886 Freud casa-se com Martha Bernays, com a ajuda financeira de alguns amigos mais abastados, dentre eles Josef Breuer, um colega mais velho da faculdade de medicina. Foi com as discussões de casos clínicos com Breuer que surgiram as idéias que culminaram com a publicação dos primeiros artigos sobre a psicanálise.

O primeiro caso clínico relatado deve-se a Breuer e descreve o tratamento dado a uma paciente (Bertha Pappenheim, chamada de "Anna O." no livro), que demonstrava vários sintomas clássicos de histeria. O método de tratamento consistia na chamada "cura pela fala" ou "cura catártica", na qual o ou a paciente discute sobre as suas associações com cada sintoma e, com isso, os faz desaparecer. Esta técnica tornou-se o centro das técnicas de Freud, que também acreditava que as memórias ocultas ou "reprimidas" nas quais baseavam-se os sintomas de histeria eram sempre de natureza sexual. Breuer não concordava com Freud neste último ponto, o que levou à separação entre eles logo após a publicação dos casos clínicos.

Freud em 1905.

Na verdade, a classe médica em geral acaba por marginalizar as idéias de Freud inicialmente; seu único confidente durante esta época é o médico Wilhelm Fliess. Depois que o pai de Freud falece, em outubro de 1896, segundo as cartas recebidas por Fliess, Freud, naquele período, dedica-se a anotar e analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua própria infância e, no processo, determinando as raízes de suas próprias neuroses. Tais anotações tornam-se a fonte para a obra

A Interpretação dos Sonhos. Durante o curso desta auto-análise, Freud chega à conclusão de que seus próprios problemas eram devidos a uma atração por sua mãe e a uma hostilidade ao seu pai. É o famoso "complexo de Édipo", que se torna o coração da teoria de Freud sobre a origem da neurose em todos os seus pacientes.

Nos primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras A Interpretação dos Sonhos e A Psicopatologia da Vida Cotidiana. Nesta época, Freud já não mantinha mais contato nem com Josef Breuer, nem com Wilhelm Fliess. No início, as tiragens das obras não animavam Freud, mas logo médicos de vários lugares — Eugen Bleuler, Carl Jung, Karl Abrahams, Ernest Jones, Sandor Ferenczi — mostram respaldo às suas idéias e passam a compor o Movimento Psicanalítico.[5]

Freud morre de câncer na mandíbula aos 83 anos de idade (passou por trinta e três cirurgias).

Supõe-se que tenha morrido de uma overdose de morfina. Freud sentia muita dor, e segundo a história contada, ele teria dito ao médico que lhe aplicasse uma dose excessiva de morfina para terminar com o sofrimento, o que seria eutanásia.

Inovações de Freud

Freud inovou em dois campos. Simultaneamente, desenvolveu uma teoria da mente e da conduta humana, e uma técnica terapêutica para ajudar pessoas afetadas psiquicamente. Alguns de seus seguidores afirmam estar influenciados por um, mas não pelo outro campo.

Provavelmente a contribuição mais significativa que Freud fez ao pensamento moderno é a de tentar dar ao conceito de inconsciente um status científico (não compartilhado por várias áreas da ciência e da psicologia). Seus conceitos de inconsciente, desejos inconscientes e repressão foram revolucionários; propõem uma mente dividida em camadas ou níveis, dominada em certa medida por vontades primitivas que estão escondidas sob a consciência e que se manifestam nos lapsos e nos sonhos.

Seu divã, hoje no Museu Freud em Londres.

Em sua obra mais conhecida, A Interpretação dos Sonhos, Freud explica o argumento para postular o novo modelo do inconsciente e desenvolve um método para conseguir o acesso ao mesmo, tomando elementos de suas experiências prévias com as técnicas de hipnose.

Como parte de sua teoria, Freud postula também a existência de um pré-consciente, que descreve como a camada entre o consciente e o inconsciente (o termo subconsciente é utilizado popularmente, mas não é parte da terminologia psicanalítica). A repressão em si tem grande importância no conhecimento do inconsciente. De acordo com Freud, as pessoas experimentam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão dolorosos que não podem suportá-los.

Tais pensamentos e sentimentos (assim como as recordações associadas a eles) não podem ser expulsos da mente, mas, em troca, são expulsos do consciente para formar parte do inconsciente.

Embora ao longo de sua carreira Freud tenha tentado encontrar padrões de repressão entre seus pacientes que derivassem em um modelo geral para a mente, ele observou que pacientes diferentes reprimiam fatos diferentes. Observou ainda que o processo da repressão é em si mesmo um ato não-consciente (isto é, não ocorreria através da intenção dos pensamentos ou sentimentos conscientes). Em outras palavras, o inconsciente era tanto causa como efeito da repressão.

Terminologia Freudiana

Alguns dos termos cunhados por Freud:
  1. Associação livre
  2. Autoerotismo complexo
  3. Complexo de castração
  4. Complexo de Édipo
  5. complexo de Electra
  6. Contratransferencia da condensação
  7. Fixação
  8. Histeria
  9. Id, Ego e Superego
  10. Inconsciente
  11. Narcizismo
  12. Neurose
  13. Preconsciente
  14. Princípio do prazer
  15. Psicologia analítica
  16. Psicossomatismo
  17. Psicoterapia
  18. Repressão
  19. Trauma

    Divisão do Inconsciente
Freud procurou uma explicação à forma de operar do inconsciente, propondo uma estrutura particular. No primeiro tópico de sua teoria ele estava preocupado em estudar o que levava à formação dos sintomas psicossomáticos (principalmente a histeria, por isso apenas os conceitos de inconsciente, pré-consciente e consciente eram suficiente). Quando sua preocupação se virou para a forma como se dava o processo da repressão, passou a adotar os conceitos de id, ego e superego.

O id representa os processos primitivos do pensamento e constitui, segundo Freud, o reservatório das pulsões, dessa forma toda energia envolvida na atividade humana seria advinda do id. Inicialmente, considerou que todas essas pulsões seriam ou de origem sexual, ou que atuariam no sentido de auto-preservação. Posteriormente, introduziu o conceito das pulsões de morte, que atuariam no sentido contrário ao das pulsões de agregação e preservação da vida.O id é responsável pelas demandas mais primitivas e perversas.

O ego, permanece entre ambos, alternando nossas necessidades primitivas e nossas crenças éticas e morais. É a instância na que se inclui a consciência. Um eu saudável proporciona a habilidade para adaptar-se à realidade e interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja cômoda para o id e o superego.

O superego, a parte que contra-age ao id, representa os pensamentos morais e éticos internalizados.

Freud estava especialmente interessado na dinâmica destas três partes da mente. Argumentou que essa relação é influenciada por factores ou energias inatas, que chamou de pulsões.

Descreveu duas pulsões antagónicas: Eros, uma pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e Tanatos, a pulsão da morte, que levaria à segregação de tudo o que é vivo, à destruição.

Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto. Como no exemplo de se alimentar, embora haja pulsão de vida presente, afinal a finalidade de se alimentar é a manutenção da vida, existe também a pulsão de morte presente, pois é necessário que se destrua o alimento antes de ingerí-lo, e aí está presente um elemento agressivo, de segregação.

Libido

Freud, em foto de 1900: O primeiro investimento objetal da libido, segundo ele, ocorreria no progenitor do sexo oposto, esta fase caracterizada pelo investimento libidinal em um dos progenitores se chama (complexo de Édipo.

Freud também acreditava que a libido amadurecia nos indivíduos por meio da troca de seu objeto (ou objetivo). Argumentava que os humanos nascem "polimorficamente perversos", no sentido de que uma grande variedade de objetos possam ser uma fonte de prazer, sem ter a pretensão de se chegar à finalidade última, ou seja, o ato sexual. O desenvolvimento psicosexual ocorreria em etapas, de acordo com a área na qual a libido está mais concentrada: a etapa oral (exemplificada pelo prazer dos bebês ao chupar a chupeta, que não tem nenhuma função vital, mas apenas de proporcionar prazer); a etapa anal (exemplificada pelo prazer das crianças ao controlar sua defecação); e logo a etapa fálica (que é demonstrada pela manipulação dos órgãos genitais).Até então percebe-se que a libido é voltada para o próprio ego, ou seja, a criança sente prazer consigo mesma. O primeiro investimento objetal da libido, segundo Freud, ocorreria no progenitor do sexo oposto, esta fase caracterizada pelo investimento libidinal em um dos progenitores se chama (complexo de Édipo).A criança percebe então que entre ela e a mãe (no caso de um menino) existe o pai, impedindo a comunhão por ele desejada. A criança passa então a amar a mãe e a experienciar um sentimento antagônico de amor e ódio com relação ao pai. Ela percebe então que tanto o amor vivido com a mãe como o ódio vivido com o pai são proibidos e o complexo de Édipo é então finalizado com o surgimento do superego, com a desistência da criança com relação à mãe e com a identificação do menino com o pai.

Crítica ao modelo psicossexual

O modelo psicossexual que desenvolveu tem sido criticado por diferentes frentes. Alguns têm atacado a afirmação de Freud sobre a existência de uma sexualidade infantil (e, implícitamente, a expansão que se fez na noção de sexualidade). Outros autores, porém, consideram que Freud não ampliou os conhecimentos sobre sexualidade (que tinham antecedentes na psiquiatria e na filosofia, em autores como Schopenhauer); senão que Freud "neurotizou" a sexualidade ao relacioná-la com conceitos como incesto, perversão e transtornos mentais. Ciências como a antropologia e a sociologia argumentam que o padrão de desenvolvimento proposto por Freud não é universal nem necessário no desenvolvimento da saúde mental, qualificando-o de etnocêntrico por omitir determinantes sócio-culturais.

Freud esperava provar que seu modelo, baseado em observações da classe média austríaca, fosse universalmente válido. Utilizou a mitologia grega e a etnografia contemporânea como modelos comparativos. Recorreu ao "Édipo Rei" de Sófocles para indicar que o ser humano deseja o incesto de forma natural e como é reprimido este desejo. O complexo de Édipo foi descrito como uma fase do desenvolvimento psicossexual e de amadurecimento. Também fixou-se nos estudos antropológicos de toteísmo, argumentando que reflete um costume ritualizado do complexo de Édipo (Totem e Tabu). Incorporou também em sua teoria conceitos da religião católica e da judaica; assim como principios da Sociedade Vitoriana sobre repressão, sexualidade e moral; e outros da biologia e da hidráulica.

Esperava que sua investigação proporcionasse uma sólida base científica para seu método terapêutico. O objetivo da terapia freudiana ou psicanálise é, relacionando conceitos da mente cartesiana e da hidráulica, mover (mediante a associação livre e da interpretação dos sonhos) os pensamentos e sentimentos reprimidos (explicados como uma forma de energia) através do consciente para permitir ao sujeito a catarse que provocaria a cura automática.

Outro elemento importante da psicanálise é a pouca intervenção do psicanalista para que o paciente possa projetar seus pensamentos e sentimentos no psicanalista. Através deste processo, chamado de transferência, o paciente pode reconstruir e resolver conflitos reprimidos (causadores de sua doença), especialmente conflitos da infância com seus pais.

É menos conhecido o interesse de Freud pela neurologia. No início de sua carreira investigou a paralisia cerebral. Publicou numerosos artigos médicos neste campo. Também mostrou que a doença existia muito antes de que outros pesquisadores de seu tempo tiveram notícia dela e de a estudarem. Também sugeriu que era errado que esta doença, segundo descrito por William Little (cirugião ortopédico britânico), tivesse como causa uma falta de oxigênio durante o nascimento. Ao invés disso, Freud afirmou que as complicações no parto eram somente um sintoma do problema. Somente na década de 1980 suas especulações foram confirmadas por pesquisadores modernos.

Do ponto de vista da medicina, a teoria e prática freudiana têm sido substituídas pelas descobertas empíricas ao longo dos anos. A psiquiatria e a psicologia como ciências hoje apresentam questionamentos relevantes à maior parte do trabalho de Freud.[carece de fontes?]

Sem dúvida, muitas pessoas continuam aprendendo e praticando a psicanálise freudiana tradicional. No âmbito da psicanálise moderna, a palavra de Freud continua ocupando um lugar determinante, embora suas teorias freqüentemente apareçam reinterpretadas por autores como Jacques Lacan e Melanie Klein.

Críticas a Freud

Atualmente muitas críticas tem sido feitas ao método psicanalítico, porém, por mais que a ciência moderna avance, muitos dos conceitos estruturadores da psique humana e os resultados obtidos pela aplicação do método, continuam melhorando a qualidade de vida de muitas pessoas. Nota-se que a revolução promovida por Freud abriu caminhos para estudos que antigamente se encontravam em um plano imaginário. A criação de um método clínico a serviço do diagnóstico e tratamento de doenças da psique é um fato sem igual em toda a história da ciência. Porém é de se constatar certamente que em muitos escritos de Montaigne e de Pascal a idéia da auto-análise já era usada para explicar problemas subjetivos usando a lógica vigente, transformando os problemas do ser e de seu inconsciente em desafios universais, com os quais todos os homens se deparam.

Uma das mais severas críticas sofridas pelo método psicanalítico foi feita pelo filósofo da ciência Karl Popper. Segundo ele, a psicanálise é pseudociência, pois uma teoria seria científica apenas se pudesse ser falseável pelos fatos.

Um disso exemplo é o "Complexo de Édipo". Freud afirmava que esse complexo era universal, mas com que base de dados chegou a essa conclusão? Na época da formulação da psicanálise, a sua "amostra" era bastante limitada; parte dela vinha de sua experiência subjetiva (a sua "auto-analíse" precedendo a publicação de A Interpretação dos Sonhos) e da sua prática clínica, feita na maioria das vezes com pacientes burgueses de uma Áustria vitoriana. Ou seja: uma amostra retirada de contextos bem específicos e que não podem fundamentar a universalidade pretendida pelo autor.

Pacientes de Freud

Esta é uma lista parcial de pacientes cujos estudos de caso foram publicados por Freud.

  1. Anna O. = Bertha Pappenheim (1859-1936), paciente de Breuer, tratada pelo método catártico (associação livre).
  2. Cäcilie M. = Anna von Lieben
  3. Dora = Ida Bauer (1882-1945)
  4. Frau Emmy von N. = Fanny Moser
  5. Fräulein Elizabeth von R.
  6. Fräulein Katharina = Aurelia Kronich
  7. Fräulein Lucy R.
  8. O pequeno Hans = Herbert Graf (1903-1973)
  9. O homem dos ratos = Ernst Lanzer (1878-1914)
  10. O homem dos lobos = Sergei Pankejeff (1887-1979)

    Discípulos de Freud
  11. Alexander Mitscherlich
  12. Alfred Adler
  13. André Green
  14. Anna Freud
  15. Bruno Bettelheim
  16. Carl G. Jung
  17. Didier Anzieu
  18. Donald Meltzer
  19. D. W. Winnicott
  20. Edward Glover
  21. Emilio Rodrigué
  22. Enrique Pichon Rivière
  23. Erik H. Erikson
  24. Ernest Jones
  25. Frances Tustin
  26. Franz Alexander
  27. Hanna Segal
  28. Harold Searles
  29. Heinrich Racker
  30. Heinz Kohut
  31. Hélène Deutsch
  32. Herbert Rosenfeld
  33. Hermann Rorschach
  34. Horacio Etchegoyen
  35. Jacques Lacan
  36. Jean Bergeret
  37. John Bowlby
  38. Jose Bleger
  39. Karen Horney
  40. Karl Abraham
  41. Larissa Shermie
  42. Leopold Szondi
  43. Lou Andreas-Salomé
  44. Marcelle Spira
  45. Margaret Mahler
  46. Marguerite Sechehaye
  47. Marie Bonaparte
  48. Masud R Khan
  49. Melanie Klein
  50. Michael Balint
  51. Otto F. Kernberg
  52. Otto Rank
  53. Raymond de Saussure
  54. René Spitz
  55. Sabina Spielrein
  56. Sandor Ferenczi
  57. Sigmund Heinrich Foulkes
  58. Theodor Reik
  59. Victor Tausk
  60. Wilfred Bion
  61. Wilhelm Reich
  62. William R D Fairbairn

    Referências
    ↑ origem: it.wikipedia.org/wiki/Sigmund_Freud
    ↑ origem: es.wikipedia.org/wiki/Sigmund_Freud
    ↑ Letters of Sigmund Freud - selected and edited by Ernst L. Freud,Basic Books, 1960 - pag. 7 - ISBN 0-486-27105-6
    ↑ [http://www.sparknotes.com/biography/freud/section10.rhtml
    ↑ [1]

    Ver também

    O Wikiquote tem uma coleção de citações de ou sobre: Sigmund Freud.

    O Wikimedia Commons possui multimídia sobre Sigmund Freud
Ligações externas

sábado, 11 de abril de 2009

Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung (Kesswil, 26 de julho de 1875 - Küsnacht, 6 de junho de 1961) foi um psiquiatra suíço.

Vida

Juventude

Os assuntos com que Jung ocupou-se surgiram em parte do fundo pessoal que é vividamente descrito em sua autobiografia, "Memórias, Sonhos, Reflexões" (1961). Ao longo de sua vida Jung experimentou sonhos periódicos e visões com notáveis características mitológicas e religiosas, os quais despertaram o interesse por mitos, sonhos e a psicologia da religião. Ao lado destas experiências, certos fenômenos parapsicológicos emergiam, sempre para lhe redobrar o espanto e o questionamento.

Por muitos anos Jung sentiu possuir duas personalidades separadas: um ego público, exterior, que era envolvido com o mundo familiar, e um eu interno, secreto, que tinha uma proximidade especial para com Deus. Ele reconhecia ter herdado isso de sua mãe, que tinha a notável capacidade de "ver homens e coisas tais como são". A interação entre esses egos foi o tema central da sua vida pessoal e contribuiu mais tarde para a sua ênfase no esforço do indivíduo para integração e inteireza.

O pai, um reverendo, já deixou-lhe como herança uma fé cega que se mantinha a muito custo com o sacrifício da compreensão. A tarefa do filho seria responder a ele com uma fé renovada, baseada justamente no conhecimento tão rejeitado. Além disso, Jung viria a usar as escrituras como referência para a experiência interior de Deus, não como dogmas estáticos à espera de devoção muda, castradores do desenvolvimento pessoal. Ele lamentava que à religião faltasse o empirismo, que alimentaria a sede da personalidade n.º 1, e que às ciências naturais, que também tanto o fascinavam devido ao envolvimento com a realidade concreta, faltasse o significado, que saciaria a personalidade n.º 2. Os dois aspectos, religião e ciência, não se tocavam, daí sua constante insatisfação, devido ao desencontro das duas instâncias interiores. E foi dessa tentativa de saciar tanto um aspecto quanto ao outro, de fazer justiça ao ser como um todo, que decidiu formar-se em psiquiatria: "Lá estava o campo comum da experiência dos dados biológicos e dados espirituais, que até então eu buscara inutilmente. Tratava-se, enfim, do lugar em que o encontro da natureza e do espírito se torna realidade".

Ao longo da sua juventude interessou-se por filosofia e por literatura, especialmente pelas obras de Pitágoras, Empédocles, Heráclito, Platão, Kant e Goethe. Uma das suas maiores revelações seria a obra de Schopenhauer. Jung concordava com o irracionalismo que este autor concedia à natureza humana, embora discordasse das soluções por ele apresentadas. [1]

Primeiros estudos

Já estudante de medicina, decide dedicar-se à, então obscura, especialidade de psiquiatria, após a leitura ocasional de um livro do psiquiatra Kraff-Ebbing. Em 1900, Jung tornou-se interno na Clínica Psiquiátrica Burgholzli, em Zurique, então dirigida pelo psiquiatra Eugen Bleuler, famoso pela sua concepção de esquizofrenia.

Seguindo o seu treino prático na clínica, ele conduziu estudos com a associação de palavras. Já nessa época Jung propunha uma atitude humanista frente aos pacientes. O médico deveria "propor perguntas que digam respeito ao homem em sua totalidade e não limitar-se apenas aos sintomas". Desde cedo ele já adiantava a idéia do que hoje está ganhando força em todos os campos com o nome de "Holismo", o ponto de vista do homem integral. A seus olhos "diante do paciente só existe a compreensão individual". Por isso evitava generalizar um método, uma panacéia para um determinado tipo de anomalia psíquica. Cada encontro é único e, sendo assim, não pode incorrer em qualquer tipo de padronização.

Encontro com Sigmund Freud

Em 1902 deslocou-se a Paris onde estudou com Pierre Janet, regressando no ano seguinte ao hospital de Burgholzli onde assumiu um cargo de chefia e onde, em 1904, montou um laboratório experimental em que implementou o seu célebre teste de associação de palavras para o diagnóstico psiquiátrico. Neste interim, Jung entra em contato com as obras de Sigmund Freud (1856-1939). Jung viu em Freud um companheiro para desbravar os caminhos da mente.

Enviou-lhe copias de seus trabalhos sobre a existência do inconsciente, confirmando concepções freudianas de recalque e repressão. Ambos encantaram-se um com o outro, principalmente porque os dois desenvolviam trabalhos inéditos em medicina e psiquiatria.

A partir de então Freud e Jung passaram a se corresponder (359 cartas que posteriormente foram publicadas entre 1906 a 1913). O primeiro encontro entre eles, em em 27 de fevereiro de 1907, transformou-se numa conversa que durou treze horas ininterruptas. Depois deste encontro estabeleceram uma amizade de aproximadamente sete anos, durante a qual trocavam informações sobre seus sonhos, análises, trocavam confidências, discutiam casos clínicos.

Porém, tamanha identidade de pensamentos e amizade não conseguia esconder algumas diferenças fundamentais. Jung jamais conseguiu aceitar a insistência de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual, e Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais como fontes válidas de estudo em si. O rompimento entre eles foi inevitável. Seria nos anos 30 do século XX que esta divergência atingiria o auge. Se por um lado os livros de Freud eram proibidos e queimados publicamente pelos Nazistas, sendo Freud obrigado a deixar Viena pouco depois da anexação da Áustria, doente, nos seus 80 anos, para se dirigir ao exílio em Londres enquanto que quatro irmãs suas não foram autorizadas a deixar a Áustria, tendo perecido no Holocausto nos campos de concentração de Auschwitz e de Thereseinstadt, por seu lado Carl Jung tornar-se-ia neste mesmo período uma das faces mais visíveis da psiquiatria "alemã" da época.

Confronto com o inconsciente

Após a separação de Freud, Jung sentiu o chão desmoronar-se sob os pés. O sentido da sua vida ficou em primeiro plano. Seguiu-se uma série de sonhos e visões que forneceram material para o trabalho de toda uma vida. Dir-se-ia que se ele não houvesse se empenhado na integração de todo aquele material que jorrou qual lava derretida, teria fatalmente sucumbido a uma psicose.

Mas algo nele o impelia a ir adiante na compreensão de tudo o que se originava naturalmente de seu inconsciente. Em suas palavras, "Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida e neles todas as coisas essenciais se decidiram. (...) Toda a minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos (...)".

Foi durante essa fase de confronto com o inconsciente que ele desenvolveu o que chamou de "imaginação ativa", um método de interação com o inconsciente onde este se investe espontaneamente de várias personificações (pessoas conhecidas e desconhecidas, animais, plantas, lugares, acontecimentos, etc.). Na imaginação ativa interagimos ativamente com elas, isto é, discordando, quando for o caso, opinando, questionando e até tomando providências com relação ao que é tratado, isso tudo pela imaginação. Ela difere da fantasia passiva porque nesta não atuamos no quadro mental, de forma a participarmos do drama vivenciado, mas apenas nos contentamos em assistir o desenrolar do roteiro desconhecido. Pela imaginação ativa existe não só a possibilidade de compreensão do inconsciente, mas também de interação com este, de forma que o transformamos e somos transformados no processo. Um personagem pode nos fazer entender falando explicitamente do motivo de, por exemplo, estarmos com insônia. Esse enfoque trata a psique como uma realidade em si, de forma tão literal interiormente, quanto uma maçã nos é real exteriormente, ao contrário de Freud que insistia em substituir uma determinada imagem por outra de cunho sexual.

Polêmicas sobre nazismo

Carl Jung, que alguns acham ter sido um simpatizante nazista, assumiu em 1933, ano da chegada ao poder de Adolf Hitler, a presidência da "Sociedade Médica Internacional Geral para a Psicoterapia", que contou como administrador, entre outros, um sobrinho de Hermann Göring.

No início de 1934, num artigo "Sobre a situação actual da psicoterapia", Jung afirma que o Judeu, como nómade, não pode jamais criar a sua cultura própria; para desenvolver os seus instintos e talentos tem de apoiar-se em um "povo anfitrião mais ou menos civilizado". Carl Jung viria mais tarde a deixar aquela organização.

Sejam examinados os fatos. O presidente da Sociedade era Ernst Kretschmer. Quando Hitler tomou o poder, Kretschmer deixou a presidência e os membros da Sociedade, compreensivelmente alarmados, dada a situação da Alemanha, pediram insistentemente a Jung que aceitasse a presidência. Sua autoridade cientifica e sua condição de suíço representavam verdadeira tábua de salvação. "Deveria eu, perguntou Jung a seus acusadores, na atitude de neutro prudente retirar-me para a segurança do lado de cá da fronteira e lavar as mãos em inocência, ou deveria segundo estava bem consciente arriscar minha pele e expor-me a inevitáveis malentendidos, aos quais não poderia escapar todo aquele que, por força de premente necessidade, tivesse de entrar em contato com os poderes políticos existentes na Alemanha"? Jung decidiu correr os riscos que previra. Sob a presidência de Jung, a Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia conseguiu realizar dois congressos fora da Alemanha: um, em Copenhague (1937) e outro em Oxford (1938). Decerto esses encontros, noutros paises, representaram verdadeiros respiradouros para muitos cientistas alemães (Silveira, 1981).

Jung interpretou o nacional socialismo como fenômeno patológico. Uma irrupção do inconsciente coletivo. "Wotan” havia tomado posse da alma do povo alemão. E quem é Wotan? O deus pagão dos germânicos, "um deus das tempestades e da efervescência, desencadeia paixões e apetites combativos". Num ensaio publicado em 1936, Jung traça o paralelo entre Wotan redivivo e o fenômeno nazista. Wotan é uma personificação de forças psíquicas corresponde a "uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um "fator" psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura". Os fatores econômicos e políticos pareceram a Jung insuficientes para explicar todos os espantosos fenômenos que estavam ocorrendo na Alemanha. Wotan reativado no fundo do inconsciente, Wotan invasor, seria explicação mais pertinente. E estávamos apenas em 1936!

O argumento decisivo é, porém, a atitude dos nazistas em relação a Jung. Com o aparecimento do livro PSICOLOGIA e RELIGIÃO, 1940, as autoridades decidiram que toda a sua obra fosse interditada e queimada na Alemanha, bem como nos países ocupados por Hitler.

Outra acusação correlata com a de simpatizante do nazismo, foi a de anti-semita. Seria desde logo estranho admitir que um psicólogo, toda sua vida em busca do fundo psíquico comum a todos os homens (inconsciente coletivo), eternamente existente sob as diferentes peculiaridades individuais, locais, nacionais, raciais, históricas, fosse partidário de discriminações entre esses mesmos homens cuja alma tinha para ele igual estrutura básica. Seria também extravagante que um anti-semita contasse entre seus discípulos mais próximos precisamente homens de origem semita. Basta lembrar alguns nomes. Erich Neumann, judeu alemão. Chefiava o grupo jungueano em Tel Aviv, Israel, onde morreu em 1960, Seus livros são originais aplicações da psicologia jungueana. AS ORIGENS E A HISTÓRIA DA CONSCIÊNCIA, sua obra principal, é prefaciada por Jung. Gerhard Adler, judeu alemão, refugiado do nazismo, um dos mais destacados elementos do grupo jungueano na Inglaterra, co-editor das obras completas de Jung. Adler define esses ataques a Jung como devidos a "completa ignorância ou, pior, a maldade intencional". Roland Cahen, francês de origem semita, é quem chefia a escola jungueana na França e dirige a publicação das obras de Jung em língua francesa. (cf: Silveira, 1981)
Ver: Jung and the Nazis (em inglês),Carl Gustav Jung y el Nacionalsocialismo (em espanhol)
Em alguns documentos, afirmou num comentário de época sobre a cultura judaica que judeus em geral são mais conscientes e diferenciados, enquanto os 'arianos' comuns permaneceram próximos à barbárie (apud Lomeli, 1999).

Primeira fileira:Sigmund Freud, Stanley Hall, Carl Gustav Jung; segunda fileira: Abraham Brill, Ernest Jones, Sandor Ferenczi. Universidade de Clark, Massachusetts, Estados Unidos da América, Setembro de 1909

A polêmica teórica mantida por Jung com Freud não chegou ao ponto de Jung fazer referências à origem religiosa ou racial de Freud, com vistas a conquistar a simpatia nazista. Nem no artigo de 1929, em que comparava as duas teorias (Gallard, 1994 apud Medweth, 1996), nem no discurso de Jung sobre Freud após a morte deste eminente pensador, em 1939, num momento que poderia ser propício a angariar aquele beneplácito (Medweth, 1996).

Sabe-se também que o obscurantismo atingiu obras de Jung que não interessavam ao regime nazista, tendo sido suprimidas em 1940 várias edições publicadas na Alemanha, e quando da invasão da França a Gestapo destruiu as traduções francesas da obra de Jung. (Medweth, 1996).

As primeiras providências de Jung quando assumiu a Überstaatliche Ärztliche Gesellschaft für Psychotherapie (Sociedade Médica Internacional para Psicoterapia), acumulando com a entidade suíça, em 1933, foram:

A reformulação dos estatutos, para evitar o controle hegemônico por alguma das sociedades nacionais; como a Sociedade Internacional congregava as Sociedades Nacionais da Alemanha, Dinamarca, Grã-Bretanha, Países Baixos, Suécia e Suíça, era importante evitar o domínio isolado de uma delas (apud Lomeli, 1999; McGuire e Hull, 1982), de modo que as demais tivessem participação adequada e dividissem as responsabilidades;

A aceitação na Sociedade Internacional dos membros judeus e antinazistas expulsos da Sociedade da Alemanha (apud Lomeli, 1999; McGuire e Hull, 1982), de modo que eles podiam exercer o seu ofício em outros países e garantir a sua subsistência como profissionais qualificados.

Sobre o editorial nazista publicado na revista editada pela Sociedade Médica Nacional da Alemanha para Psicoterapia, Jung declarou várias vezes que ele não teve ingerência no episódio.

Pelas amizades que tinha com muitos representantes das vítimas do preconceito nazista, e pelo conteúdo de sua obra, é extremamente improvável que ele concordasse intelectualmente com o seu conteúdo, sob pena de perder esses relacionamentos.

As acusações sobre Jung, como resultantes de um mal-entendido, teriam sido logo liquidadas de modo definitivo, face a tantas documentações e testemunhos logicamente irrefutáveis.

Entretanto, a persistência desses rumores bem indica que por trás deles podem fermentar ainda as divergências entre Jung e o grande judeu Freud, nunca perdoadas pelos discípulos do mestre ortodoxo. (Silveira, 1981)

Reconhecimento internacional

Em 1938, quando Freud saiu de Viena para Londres, a Dra. Iolande Iacobi também emigrou para Zurique, continuou seus estudos com Jung e posteriormente foi uma das fundadoras do Instituto C.G.Jung, tendo escrito a introdução às obras completas de Jung. (McGuire e Hull, 1982, p. 52). Ainda nesse ano, a Universidade de Oxford, na Inglaterra, concedeu-lhe o título de Doutor Honoris Causa.

Em 1939 Jung renunciou à presidência da Sociedade Médica Internacional para Psicoterapia. Alegou que já tentara por duas vezes anteriores a renúncia, tendo permanecido apenas devido a pedidos dos representantes britânico e neerlandês, somente se retirando quando foram interrompidas as comunicações internacionais e a sua permanência não era mais necessária (apud Loneli).

Em 1946, em cerimônia realizada em Zurique, Winston Churchill pediu que o Dr, Jung compusesse a mesa e se sentasse a seu lado (Lomeli, 1999). Em abril desse ano Ernest Harms publicou um artigo cujo título é “Carl Gustav Jung – Defender of Freud and the Jews” na Psychiatric Quarterly (McGuire e Hull, 1982, p. 70).

Alguns dos seus mais devotados pupilos – Erich Neumann, Gerhard Adler, James Kirsch e Aniela Jaffe – eram Judeus (Medweth, 1996). - Citações: Lomeli, 1999; Medweth, 1996; McGuire, William e Hull, R.F.C. (1982). C.C.Jung: entrevistas e encontros. São Paulo: Cultrix.

Últimos dias

Carl Gustav Jung morreu a 6 de junho de 1961, aos 86 anos, em sua casa, nas margens do lago de Zurique, em Küsnacht após uma longa vida produtiva, que marcou - e tudo leva a crer que ainda marcará mais - a Antropologia, a Sociologia e a Psicologia, e também, em outros campos como a Arte, a Literatura e a Mitologia.

A psicologia analítica

Anterior mesmo ao período em que estavam juntos, Jung começou a desenvolver uma sistema teórico que chamou, originalmente, de "Psicologia dos Complexos", mais tarde chamando-a de "Psicologia Analítica", como resultado direto de seu contato prático com seus pacientes. O conceito de inconsciente já está bem sedimentado na sólida base psiquiátrica de Jung antes de seu contato pessoal com Freud, mas foi com Freud, real formulador do conceito em termos clínicos, que Jung pôde se basear para aprofundar seus próprios estudos. O contato entre os dois homens foi extremamente rico para ambos, durante o período de parceria entre eles. Aliás, foi Jung quem cunhou o termo e a noção básica de "complexo", que foi adotado por Freud.

Utilizando-se do conceito de "complexos" e do estudo dos sonhos e de desenhos, Jung passou a se dedicar profundamente aos meios pelos quais se expressa o inconsciente. Em sua teoria, enquanto o inconsciente pessoal consiste fundamentalmente de material reprimido e de complexos, o inconsciente coletivo é composto fundamentalmente de uma tendência para sensibilizar-se com certas imagens, ou melhor, símbolos que constelam sentimentos profundos de apelo universal, os arquétipos: da mesma forma que animais e homens parecem possuir atitudes inatas, chamadas de instintos ("fato" este negado por correntes de ciências humanas, como por exemplo em antropologia o culturalismo de Franz Boas ), também é provável que em nosso psiquismo exista um material psíquico com alguma analogia com os instintos.

Os tipos psicológicos

Jung sentia que a ênfase da psicanálise nos fatores eróticos era um ponto de vista unilateral, uma visão reducionista da motivação humana e do seu comportamento. Ele propôs que a motivação do homem fosse entendida em termos de uma energia de vida criativa geral - a libido - capaz de ser investida em direções diferentes, assumindo grande variedade de formas. A libido corresponderia ao conceito de energia adotado na Física, a qual pode ser interpretada em termos de calor, eletricidade, motricidade, etc. As duas direções principais da libido são conhecidas como extroversão (projetada no mundo exterior, nas outras pessoas e objetos) e introversão (dirigida para dentro do reino das imagens, das idéias, e do inconsciente). As pessoas em quem a primeira tendência direcional predomina são chamadas extrovertidas, e introvertidas aquelas em quem a segunda direção é mais forte.

A sua necessidade em criar uma tipologia psíquica decorreu da questão que nasceu em seu interior acerca de sua divergência com Freud e até com outros profissionais. Ele poderia, assim, ter perguntado: "Por que divirjo de Freud?". A resposta tomou forma na análise que fez das teorias psicológicas de seu mestre e de Adler, também um ex-discípulo de Freud. Para este as neuroses derivavam de problemas com os instintos, para o outro do próprio ego, no seu sentimento de superioridade ou inferioridade. Um, portanto, extrovertido, e o outro introvertido.

Jung também propôs que se poderia agrupar as pessoas de acordo com o seu maior desenvolvimento em uma das quatro funções psicológicas: pensamento, sentimento, sensação, ou intuição. Transformações de libido de uma esfera de expressão para outra - por exemplo, de sexualidade para religião - são realizadas por símbolos que são gerados durante a mudança de personalidade.

A psicologia junguiana também merece outro destaque: o processo de individuação. Conforme Nise da Silveira (2006) todo ser tende a realizar o que existe nele, em germe, a crescer, a completar-se. Assim é para a semente do vegetal e para o embrião do animal. Assim é para o homem, embora o desenvolvimento de suas potencialidades seja impulsinado por forças instintivas inconscientes, isso adquire um caráter peculiar: o homem é capaz de tomar consciência desse desenvolvimento e de influenciá-lo. Precisamente no confronto do inconsciente com o consciente, no conflito como na colaboração entre ambos é que os diversos componentes da personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na realização de um indivíduo específico e inteiro. Essa confrontação "é o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os dois, o homem, como o ferro, é forjado num todo indestrutível, num indivíduo. Isso, em termos toscos, é o que eu entendo por processo de individuação" (Jung).

O processo de individuação não consiste num desenvolvimento linear. É um movimento de circunvolução que conduz a um novo centro psíquico. Jung denominou esse centro de Self (si mesmo). Quando consciente e inconsciente vêm ordenar-se em torno do Self, a personalidade completa-se. O Self será o centro da personalidade total, como o ego é o centro do campo do consciente. O conceito junguiano de individuação tem sido muitas vezes deturpado. Entretanto é claro e simples na sua essência: tendência instintiva a realizar plenamente potencialidades inatas.

Mas, de fato, a psique humana é tão complexa, são de tal modo intricados os componentes em jogo, tão variáveis as intervenções do ego consciente, tantas as vicissitudes que podem ocorrer, que o processo de totalização da personalidade não poderia jamais ser um caminho reto e curto de chão bem batido. Ao contrário, será um percurso longo e difícil.

A psique objetiva

Jung percebeu que a compreensão da criação de símbolos era crucial para o entendimento da natureza humana. Ele então explorou as correspondências entre os símbolos que surgem nas lutas da vida dos indivíduos e as imagens simbólicas religiosas subjacentes, sistemas mitológicos, e mágicos de muitas culturas e eras. Graças à forte impressão que lhe causou as muitas notáveis semelhanças dos símbolos, apesar de sua origem independente nas pessoas e nas culturas (muitos sonhos e desenhos de seus pacientes de variadas nacionalidades exprimiam temas mitológicos longínquos), foi que ele sugeriu a existência de duas camadas da psique inconsciente: a pessoal e a coletiva. O inconsciente pessoal inclui conteúdos mentais adquiridos durante a vida do indivíduo que foram esquecidos ou reprimidos, enquanto que o inconsciente coletivo é uma estrutura herdada comum a toda a humanidade composta dos arquétipos - predisposições inatas para experimentar e simbolizar situações humanas universais de diferentes maneiras. Há arquétipos que correspondem a várias situações, tais como as relações com os pais, o casamento, o nascimento dos filhos, o confronto com a morte. Uma elaboração altamente derivada destes arquétipos povoa todos os grandes sistemas mitológicos e religiosos do mundo.

Na qualidade de cientista altamente desapegado e desconfiado do favorecimento que se dá a certas verdades, para ele materialismo e ciência não eram sinônimos. O materialismo não passa o culto a um deus exteriormente concreto por meio da razão, um tipo de fé nos princípios limitadores das leis físicas. "A razão nos impõe limites muito estreitos e apenas nos convida a viver o conhecido". Para sermos realmente justos, convém recebermos igualmente os aspectos racionais e irracionais da vida.

Perto do fim da vida Jung também sugeriu que as camadas mais profundas do inconsciente independem das leis de espaço, tempo e causalidade, dando lugar aos fenômenos paranormais como a clarividência e a precognição. A estas correspondências entre acontecimentos interiores e exteriores, por meio de um significado comum, ele deu o nome de sincronicidade. Muitos fatos ocorridos enquanto tratava seus clientes o fizeram crer que os acontecimentos se dispunham "de tal modo, como se fossem o sonho de uma 'consciência maior e mais abrangente, por nós desconhecida'" (Obras Completas Vol. VIII, p. 450).

Sincronicidade

Esse termo é uma tentativa de encontrar formas de explicação racional para fenômenos que a ciência de então não alcançava, tais como os referidos acima, fenômenos não causais que não podem ser explicados pela razão, porém são significativos para o indivíduo que os experimenta.

Para uma abordagem sobre a construção do conceito veja-se Capriotti, Letícia. Jung e sincronicidade: a construção do conceito), e uma explanação sintética e didática de sincronicidade, veja-se Capriotti, Letícia. Jung e sincronicidade: o conceito e suas armadilhas.)

A construção do conceito de sincronicidade surgiu da leitura que Jung fez de um grande número de obras sobre alquimia e o pensamento renascentista. Jung chegou a possuir grande quantidade de textos alquímicos originais, que o levaram também a usar a expressão Unus Mundus em sua autobiografia, e a idéia de Anima Mundi.

Uma interessante análise da contribuição da psicologia profunda de Freud – Jung para a formação do pensamento ocidental, mostrando como Jung tinha preocupações epistemológicas rigorosas pode ser vista em Tarnas. Em função disso, tais fenômenos puderam ser examinados, mas apenas como algo psicológico, e não propriamente da natureza, resultando em algumas distorções interpretativas, em inúmeros sentidos.

A partir da contribuição de Jung, vários desenvolvimentos em diferentes áreas do conhecimento têm ampliado a compreensão da relação entre os processo psíquicos e o mundo exterior. O conceito de inconsciente coletivo encontra ecos na nova física de Bohm e Capra, nos campos morfogenéticos de Sheldrake, nas psicologia profunda e na ecopsicologia norte-americanas.

Imagens do inconsciente

No Brasil, Jung teve uma conhecida aluna, a Dra. Nise da Silveira, fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente. Ela escreveu, dentre outros, o livro “Jung: vida e obra”, publicado em primeira edição em 1968.

Jung - Uma resposta ao nosso tempo

Na terapia junguiana, que explora extensivamente os sonhos e fantasias, um diálogo é estabelecido entre a mente consciente e os conteúdos do inconsciente. A doença psíquica é tida como uma conseqüência da separação rígida entre elas. Os pacientes são orientados a ficarem atentos aos significados pessoal e coletivo (arquétipo) inerente aos seus sintomas e dificuldades.

Sob condições favoráveis eles poderão ingressar no processo de individuação: uma longa série de transformações psicológicas que culminam na integração de tendências e funções opostas, e na realização da totalidade. Jung trilhou a individuação, pois havia a necessidade imperiosa nele de ir ao inferno e voltar para poder mostrar o caminho da volta àqueles que ficaram perdidos pelo caminho da vida. Tornou-se ele uma resposta sincera e corajosa ao nosso tempo. "Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der".

Breve biografia em tópicos
  1. 1875: Nasce na Suíça, a 26 de julho, Carl Gustav Jung, filho de um pastor;
  2. 1895 - 1900: Estuda medicina na Universidade da Basiléia;
  3. 1900: É assistente de Eugen Bleuler, médico-chefe do Burghölzli (hospital psiquiátrico) em Zurique;
  4. 1902: Tese de doutoramento: "Sobre a psicologia e a patologia dos fenômenos ditos ocultos";
  5. 1905 - 1909: Chefe de clínica no Burghölzli;
  6. 1905 - 1913: Professor na Faculdade de Medicina de Zurique; aulas de psicologia e psiconeuroses;
  7. 1907: "Psicologia da Demência Precoce"; encontro com Freud;
  8. 1908: I Congresso Internacional de Psicanálise;
  9. 1909: Abertura de clínica particular;
  10. 1910 - 1914: Primeiro presidente da Associação Psicanalítica Internacional;
  11. 1913: Jung dá o nome à sua psicologia de "Psicologia Analítica"; demissão de seu posto de ensino na Universidade de Zurique;
  12. 1914: Conferências em Londres e Aberdeen; é mobilizado para o ser-viço de saúde;
  13. 1916: "Sete Sermões aos Mortos" e "A Função Transcendente"; estudo sobre os gnósticos;
  14. 1918 - 1919: Comandante do campo de internação de Soldados ingleses; pintura de mandalas;
  15. 1921: "Tipos Psicológicos";
  16. 1923: Construção da torre perto do lago de Zurique; Jung trava amizade com Richard Wilhelm (tradutor do "I Ching - O Livro das Mutações");
  17. 1924 - 1925: Visita aos índios Pueblo do Novo México (EUA);
  18. 1925 - 1926: Expedição a Uganda, ao Quênia, às margens do Nilo; visita aos Elgonys no Monte Elgon;
  19. 1928: "O Eu e o Inconsciente";
  20. 1929: Comentário de "O Segredo da Flor de Ouro";
  21. 1932: Prêmio de literatura em Zurique;
  22. 1933: Viagem ao Egito e Palestina;
  23. 1934: Presidente da Sociedade Médica Geral para Psicoterapia;
  24. 1936: Doutor "honoris causa em Harvard (Massachussets);
  25. 1938: Viagem à Índia, a convite do governo britânico; presidente do Congresso Internacional de Psicoterapia, em Oxford; membro da Real Sociedade de Medicina;
  26. 1940: "Psicologia e Religião";
  27. 1944: Nomeação para a cátedra de Psicologia da Faculdade de Medicina de Basiléia; "Psicologia e Alquimia";
  28. 1945: Doutor "honoris causa" da Universidade de Genebra;
  29. 1948: Inauguração do Instituto C. G. Jung em Zurique;
  30. 1951: "Aion";
  31. 1952: "Sincronicidade" e "Resposta a Jó";
  32. 1955: Morte de sua mulher a 27 de novembro;
  33. 1955 - 1956: "Mysterium Conjunctionis";
  34. 1957: Começo da redação de "Memórias, Sonhos e Reflexões", com Aniela Jaffé; entrevista na TV para a BBC;
  35. 1961: Termina, dez dias antes de morrer, um ensaio para "O Homem e Seus Símbolos"; morre a 6 de junho.

    Obras
Devido à metodologia usada por Jung, seus escritos costumam ser de leitura difícil e penosa. É recomendável iniciar por algum de seus comentadores, como Nise da Silveira (Jung: vida e obra) e Aniela Jaffe (Memórias, sonhos e reflexões de C. C. Jung). Sobre este, um comentário.

Eis abaixo, a lista das obras de Jung, publicadas em português no Brasil:

  • A Energia Psíquica.
  • A Prática da Psicoterapia.
  • A Vida Simbólica: Escritos Diversos.
  • Ab-reação, análise dos sonhos, transferência.
  • Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo.
  • Cartas de Carl Gustav Jung.
  • Consideraciones Sobre la Historia Actual (ainda não traduzido para língua portuguesa).
  • Escritos Diversos.
  • Estudos Alquímicos.
  • Estudos Experimentais Vol. II.
  • Estudos Experimentais.
  • Estudos Psiquiátricos.
  • Eu e o Inconsciente.
  • Freud e a Psicanálise.
  • Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade.
  • Memórias, Sonhos e Reflexões. Autobiografia escrita em conjunto com Aniela Jaffé.
  • Misterium Coniunctionis 1.
  • Misterium Coniunctionis 2.
  • Misterium Coniunctionis 3.
  • O Desenvolvimento da Personalidade.
  • O Homem e seus Símbolos. Obra para leigos, organizada por Jung e escrita por ele e seus colaboradores, com artigos de Aniella Jaffé, Marie-Louise fon Franz e outros.
  • O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chinesa.
  • Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
  • Presente e Futuro.
  • Psicologia da Religião Ocidental e Oriental.
  • Psicologia do Inconsciente.
  • Psicologia e Alquimia.
  • Psicologia e Religião Oriental.
  • Psicologia e Religião.
  • Símbolo da Transformação na Missa.
  • Símbolos da Transformação: Análise dos Prelúdios de uma Esquizofrenia.
  • Sincronicidade.
  • Tipos Psicológicos.
  • A natureza da psique.

Alguns termos empregados por Jung na descrição da psique:

Alma
Amplificação
Análise
Anima
Animus
Arquétipo
Circumambulação
Compensação
Complexo
Consciência
Desintegração
Diferenciação
Dissociação
Ego
Extroversão
Fantasia passiva
Função auxiliar
Função inferior
Função Intuição
Função Pensamento
Função Sensação
Função Sentimento
Função superior
Função transcendente
Funções da consciência
Imaginação Ativa
Inconsciente coletivo
Inconsciente pessoal
Individuação
Inflação
Instinto
Integração
Introversão
Libido
Personalidade maná
Mandala
Método redutivo
Método sintético (construtivo)
Mito
Neurose
Numinoso
Opostos
Participation Mystique
Perda da alma
Persona
Personificação
Ponto de vista prospectivo (finalista)
Possessão
Projeção
Projeção
Psicóide
Psicologia Analítica
Psicose
Psique
Psique objetiva
Puer Aeternus
Realidade psíquica
Regressão
Sacrifício
Self (Si-mesmo)
Significado
Símbolo
Sincronicidade
Sombra
Sonhos
Tipos psicológicos
Totalidade
Transformação
Unus Mundus

Ver também

O Wikiquote tem uma coleção de citações de ou sobre: Carl Gustav Jung

Bibliografia

  • Todas as citações entre aspas que se encontram acima foram extraídas do livro "Memórias, Sonhos e Reflexões", autobiografia de Jung, Editora Nova Fronteira S.A., exceto as que explicitamente referem-se a outras obras.
  • JUNG, C. G.. Phénomènes occultes. Paris: Ed. Montaigne, 1939.

Ligações externas